segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Auto-Retrato nº 01

Olhando alguns anos atrás
Lembro, mas não mais com tristeza
De uma vida a qual pertenci
Vida em que compartilhávamos o pouco de comida que pairava sobre nossa mesa

Vida dura a qual eu talvez nem tenha sofrido tanto
Criança não vê classe, não vê ouro, tão pouco a abate qualquer  desencanto
Mas vivi o dilema de não saber em qual universo eu me encontrava
Nem entendia as razões que traziam minha mãe ao pranto

A me confundir mais ainda, viria questões mais simples,
mas que quando criança habitavam com frequência minha mente
Pois tinha muito do que queria, e achava injusto me considerar pobre
Mas mesmo assim, por que nossa realidade era infinitamente distante do que uma família classe média teria?
E o porquê nesses dois universos adversos, eu de certa forma vivia?

Talvez ao ver minha mãe tão distante em meio as suas rotinas
Em meio as suas duplas jornadas
Entre consultas, supletivo e faxinas
Tenha me afastado de forma quase que imperceptível
Já que em dias de "branco" meu irmão me cuidava
E vê-la em casa chegar era quase impossível

Talvez eu, mesmo criança, tenha criado o invólucro que a impedia de me entender realmente
De saber sobre meus interesses, e de todas as mirabolantes ideias que passavam em minha mente, de criança a adolescente.

Nossas crises nunca foram totalmente superadas
Eu já cobrei demais sua presença
Assim como errei incessantemente a te apontar falhas
E talvez nessa ausência, minha poesia viu espaços para que ficasse cada vez mais apurada
O que me fez sonhador
Sem carteira assinada
Mas que mesmo sem dizer, valorizo seus percalços
Suas andanças a pés descalços
É essencial, até nas falhas

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